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  No verão de 1960, Jane Goodall (com 26 anos) chegou às margens do Lago Tanganyika (Tanzânia) para conduzir um estudo na população selvagem de chimpanzés.

  Na época, apesar de ser insólito uma mulher aventurar-se na selva africana, Jane persistiu: era o realizar de um sonho de infância.

  O trabalho que Jane conduziu na Tanzânia provou ser muito mais importante do que alguma vez pôde ser imaginado. 

Jane Goodall

"Miss Goodall and the Wild Chimpanzees" (1965, primeiro documentário na National Geographic Society)

CBS via GETTY

Infância e juventude |   Louis Leakey e as "trimatas"  |  Abordagem e contribuições para a primatologia  |  Instituto Jane Goodall e Roots & Shoots  |  Prémios e honras

INFÂNCIA E JUVENTUDE

  Valerie Jane Morris-Goodall nasce em Londres (Inglaterra), no dia 3 de Abril de 1934, filha de Mortimer (engenheiro) e Vanne (pronuncia-se Van, autora).

  Quando faz um ano, o pai oferece-lhe um peluche dum chimpanzé, em honra do chimpanzé bebé nascido no Zoo de Londres. Dão ao peluche o nome Jubilee e Jane anda sempre com ele.

  Em criança, Jane adora animais e tem o sonho de viajar para África, para ver os animais e escrever sobre eles. Apesar de ser um sonho inusitado para uma rapariga da altura, a mãe Vanne encoraja-a: "Jane, se quiseres muito uma coisa e trabalhares arduamente, se aproveitares as oportunidades e nunca desistires, irás conseguir concretizá-la".

  Vive uma infância feliz, passada a explorar o jardim da sua casa de família em Bornemouth (Inglaterra). 

  Entre 1939 e 1945, o mundo é devastado pela Segunda Guerra Mundial. Entre os seus 5 e 11 anos, Jane passa pouco tempo com o pai, que se encontra ausente a trabalhar como engenheiro no exército inglês.

  No fim da guerra, os pais de Jane divorciam-se.

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Jane com o peluche Jubilee

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Jane na casa de família com o gato Figaro

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Família Goodall durante a II Guerra mundial

Mortimer (pai), Jane, Vanne (mãe) e Judy (irmã)

  Jane termina a escola secundária em 1952 e, não podendo pagar a Universidade, decide aprender a ser secretária e trabalha na Universidade de Oxford. Mais tarde, trabalha numa empresa de cinematografia, escolhendo a música para documentários.

  Em 1956, a sua amiga Clo Mange convida-a para a sua quinta de família, no Quénia. Jane deixa o seu trabalho londrino, volta para casa de família e trabalha como empregada de mesa para poupar dinheiro para a passagem de barco.

  No dia 2 de Abril de 1957, com 23 anos, Jane viaja para o Quénia de barco. Nessa viagem, conhece o famoso antropólogo e paleontólogo Dr. Louis S. B. Leakey. Este fica impressionado com os seus conhecimentos de África e dos animais africanos, ao ponto de a contratar como sua assistente.

  Jane viaja com Louis e Mary Leakey (mulher de Louis Leakey) até Olduvai Gorge (Tanzânia), para uma expedição em busca de fósseis.

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Louis e Mary Leakey

Examinam o palato de um Zinjanthropus (hominíneo)

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Jane e Rusty (Bournemouth, 1954)

Nas costas da fotografia lê-se "Jane e Rusty, os inseparáveis"

Jane Goodall e Louis Leakey

LOUIS LEAKEY E AS "TRIMATAS"

  Louis Leakey (1903 - 1972) foi um importante paleoantropólogo e arqueólogo. O seu trabalho, sempre acompanhado pela sua mulher Mary Leakey (paleontóloga), contribuiu para o conhecimento da evolução humana em África, sobretudo graças às descobertas feitas por ambos em Olduvai Gorge.

  O seu trabalho de classificação e compreensão dos registos humanos fósseis levou-o a considerar que os humanos teriam evoluído dos primatas. E, se a sua proposição estivesse certa (como se veio a provar), seria fulcral compreender o comportamento dos grandes símios para compreender como os humanos ancestrais viveriam. Até então, os estudos que tinham sido feitos com comportamento tinham sido em cativeiro. Era preciso conduzir estudos de longa duração na Natureza. 

  Ao procurar estudantes que pudessem levar a cabo as duras pesquisas, Leakey escolheu três mulheres. E, segundo Jane Goodall, escolheu mulheres propositadamente: "Eu tive muita sorte. Porque Louis Leakey acreditava que as mulheres seriam melhores observadoras, do que homens. Ele acreditava que elas seriam mais pacientes".

  Jane afirmou que há a possibilidade das mulheres terem evoluído para serem mais observadoras por causa do cuidado das crias: "Para cuidar bem, uma pessoa tem que ser paciente, tem que ser capaz de compreender as necessidades duma pequena criatura antes de ela conseguir falar e tem, também, que ser muito observadora nas relações no grupo familiar ou tribo, porque queres manter a tua cria longe de um membro que esteja de mau humor ou algo assim. Desta forma, todos estes atributos (se a teoria se confirmar) fariam com que uma mulher tivesse tendência para fazer melhor [este trabalho]".

  Leakey viu que o habitat dos grandes símios (chimpanzés, gorilas e orangotangos) estava a desaparecer e que poderia tornar-se demasiado tarde para estudar estes animais na Natureza. Assim, ele angariou fundos suficientes para que três mulheres pudessem estudar estes animais: Jane Goodall (chimpanzés), Dian Fossey (gorilas) e Biruté Galdikas (orangotangos). Estas três mulheres eram "telas brancas", cientificamente, e poderiam estudar e observar estes animais sem preconceitos ou pré-concepções.

  Estas três mulheres foram apelidadas por Louis Leakey como "Trimatas", um trocadilho entre "três" e "primatas". Também eram apelidadas de "Os Anjos de Leakey", em referência ao filme "Os Anjos de Charlie".

  Estas três mulheres inspiraram muitas crianças e raparigas a sonharem e investir nos seus sonhos sem medos. As escolhas de Louis Leakey parecem ter tido uma influência duradoura no mundo da primatologia pois é a única área científica onde as mulheres ultrapassam os homens: elas compõe 62% do directório mundial de primatologistas e gerem 90% de todos os santuários de primatas.

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Diane Fossey brinca com jovens gorilas da montanha

Robert I.M. Campbell

As Trimatas

Biruté Galdikas, Dian Fossey e Jane Goodall

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Biruté Galdikas com um orangotango bebé

Bornéu

ABORDAGEM E CONTRIBUIÇÕES PARA A PRIMATOLOGIA

   A abordagem de Jane Goodall não era considerada, na altura, a mais ortodoxa. Ela imergiu por completo no habitat dos chimpanzés e nas suas vidas, de forma a "viver" a sua sociedade complexa como uma vizinha, em vez de uma observadora deslocada. Ela deu nomes a cada indivíduo, em vez de números (como era hábito). Esta abordagem íntima gerou bastante cepticismo na comunidade científica, que inicialmente não respeitava nem valorizava o trabalho que Jane levava a cabo.

  No entanto, foi graças a essa proximidade na sua investigação que Jane conseguiu compreender os chimpanzés não apenas como espécie, mas como indivíduos capazes de raciocínio cognitivo, resolução de problemas, uso de ferramentas. São seres com personalidade, capazes de sentir emoções, como tristeza e alegria, medo e desespero, amor e empatia, construindo verdadeiros vínculos de longo prazo.

  Inicialmente, as autoridades britânicas estavam completamente chocadas com a ideia de uma jovem rapariga viver com animais selvagens, no meio da selva e recusaram uma permissão para tal ideia "ultrajante". Eventualmente, aceitaram a proposta se Jane fosse acompanhada. Assim, a sua mãe Vanne decidiu acompanhá-la e acabou mesmo por contribuir para o sucesso do projecto a longo prazo, ao criar uma "clínica" (quatro postes e um telhado) para os pescadores locais. Esta clínica ajudou a criar relações amistosas com as pessoas locais.

  Durante os primeiros meses, Jane não conseguia praticamente ver, nem aproximar-se dos chimpanzés. No entanto, com alguma perserverança, Jane foi conquistando a comunidade. O primeiro chimpanzé a perder o medo foi um macho adulto chamado David Greybeard (nome dado por Jane). Ele chegou até a ir ao acampamento para comer nozes de óleo de palma e "roubar" algumas bananas. A sua calma aceitação de Jane convenceu os outros chimpanzés que ela não era uma ameaça.

  Em Outubro de 1960, Jane observou David Greybeard agachado junto a uma termiteira (construção de terra feita por térmitas). Não querendo assustá-lo, ficou afastada. Não conseguia ver totalmente, mas parecia que David estava a usar um pau dentro da termiteira e depois levava-o à boca. Quando acabou, Jane foi até à termiteira e repetiu o gesto. Ao retirar o pau, este estava cheio de térmitas: David Greybeard tinha usado uma ferramenta para apanhar insectos.

  Mais tarde, Jane viu que os chimpanzés retiravam as folhas dos paus, para que ele fosse uma ferramenta melhor adequada ao propósito. Esta descoberta foi absolutamente inovadora! Até aí, o ser humano era descrito como "o fabricante de ferramentas" e considerava-se que éramos os únicos animais capazes de fazer e utilizar ferramentas. Jane, muito entusiasmada, enviou um telegrama ao seu mentor Leakey a contar o que tinha descoberto. A resposta que Goodall recebeu de Leakey ficou para sempre conhecida:

  Eventualmente, os chimpanzés do Gombe foram vistos a usar diferentes objectos (caules, galhos, galhos, folhas e pedras) em 9 formas diferentes para conseguir realizar uma tarefa (comer, beber, lavar-se, investigar objectos longe de si). Foram até vistos a usar objectos como armas, agitando galhos e atirando pedras como "mísseis".

  Outras comunidades de chimpanzés, fora do Gombe, usam os objectos para diferentes objectivos. Estes comportamentos, passados de geração em geração através de aprendizagem por observação, têm sido considerados como uma forma de cultura primitiva.

  Depois de receber o seu Doutoramento em Etologia, pela Universidade de Cambridge, Jane regressou à Tanzânia para continuar o seu estudo. Criou o Centro de Pesquisa do Gombe, onde foram feitas muitas descobertas que mudaram radicalmente a primatologia:

  • Os chimpanzés foram relações familiares longas. Apoiam-se uns aos outros, mesmo se não forem família. Em 1987, Jane observou a Spindle (chimpanzé adolescente) adoptar o órfão de 3 anos Mel, apesar de este não ser um familiar próximo.

  • Os chimpanzés entram em guerra, de formas primitivas brutais. Em 1974, a "guerra dos quatro anos" começou no Gombe: a primeira guerra de longa duração vista em primatas não-humanos. Membros do grupo Kasakela matavam sistematicamente membros do grupo dissidente Kahama.

  • Os chimpanzés têm padrões de cortejo surpreendentes. Os machos levam as fêmeas para "consórcios" de união em áreas remotas durante dias a meses.

  • Os chimpanzés activamente caçam e comem outros animais. Esta descoberta vem invalidar teorias anteriores, de que os chimpanzés eram primariamente vegetarianos e frugívoros, que apenas ocasionalmente suplementavam a sua dieta com insectos roedores.

Agora teremos que redefinir ferramenta, redefinir o ser humano ou aceitar os chimpanzés como humanos.

Louis Leakey    

Jane Goodall wrote up her field notes ea

Jane a rever as suas notas de campo à noite, na sua tenda

Hugo van Lawick/Jane Goodall Institute

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David Greybeard: o primeiro chimpanzé a perder o medo, deixando Jane tocá-lo e catá-lo

Hugo van Lawick/Jane Goodall Institute

INSTITUTO JANE GOODALL E PROGRAMA ROOTS & SHOOTS

  Em 1977, Goodall compreendeu que, para poder defender o melhor possível os chimpanzés, teria que sair da floresta. Fundou então o Instituto Jane Goodall (JGI), que providencia apoio para pesquisa de campo em chimpanzés e que trabalha para proteger o habitat onde eles vivem. Existem, neste momento, o JGI tem sede em 35 países no mundo inteiro. Actualmente, Portugal não tem uma sede do Instituto Jane Goodall.

  Em 1991, o Roots & Shoots foi criado na Tanzânia. Esse programa educativo existe em quase 100 países, incluindo Portugal.

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PRÉMIOS E HONRAS

  Jane Goodall recebeu vários prémios e honras, incluindo:

  • Medalha da Tanzânia

  • Medalha Hubbard da National Geographic Society

  • Prestigiado prémio Kyoto (Japão)

  • Prémio de Pesquisa Técnica e Científica do Príncipe das Astúrias (2003)

  • Medalha Benjamin Franklin em Ciência da Vida

  • Prémio Gandhi/King para a não-violência.

  Em 2002, foi nomeada Mensageira da Paz das Nações Unidas (ONU), pelo então secretário-geral Kofi Annan. Os Mensageiros da Paz ajudam a mobilizar a população a envolver-se em trabalho que torna o mundo um lugar melhor. Trabalham em diferentes áreas: erradicação da pobreza, direitos humanos, paz e resolução de conflitos, HIV/AIDS, desarmamento, desenvolvimento de comunidades e ambientalismo.

  Em 2003, a Rainha Isabel II nomeou Jane Goodall como Dama do Império Britânico (equivalente a ser nomeado cavaleiro).

  Jane Goodall recebeu  doutoramentos honorários de diversas universidades, incluindo:

  • Universidade de Utrecht (Holanda)

  • Universidade Ludwig-Maximilians (Munique)

  • Universidade Stirling (Escócia)

  • Universidade Providence (Taiwan)

  • Universidade de Guelph (Canadá)

  • Universidade Ryerson (Canadá)

  • Universidade de Buffalo (EUA)

  • Universidade de Tufts (EUA)

  Para todos os prémios, honras e doutoramentos honorários, carregue aqui (em inglês).

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Marco Grob—Trunk Archive

Bibliografia:

Goodall, Jane. 1971 In the Shadow of Man. Boston: Houghton Mifflin Company.
Goodall, Jane. 1986 The Chimpanzees of Gombe: Patterns of Behavior Boston: Bellknap Press of the Harvard University Press.
Goodall, Jane. 1988 My Life with the Chimpanzees New York: Byron Press.
Goodall, Jane. 1990 Through a Window: My Thirty Years with the Chimpanzees of Gombe Boston: Houghton Mifflin Company. Wallauer, Bill. 1997
Another Well-Deserved Tribute to Fifi The Jane Goodall Institute World Report. Volume III, pp. 6-8.

https://www.cbc.ca/natureofthings/features/louis-leakey-selected-three-women-to-study-the-great-apes-they-inspire-youn

https://www.khanacademy.org/humanities/big-history-project/early-humans/how-ancestors-evolved/a/lucy-and-the-leakeys

https://www.theguardian.com/books/2000/jun/10/scienceandnature

https://www.janegoodall.org.au/about-dr-jane-goodall/#eluid1aabb129